O Fim do Frio




Traduzindo um Dylan Thomas

As mãos estavam cansadas, apesar de toda a noite terem repousado em cima dos lençóis da cama e dele só as ter levado à boca e ao seu coração revolto. As veias corriam, insalubremente regatos azuis, para o branco mar. O leite ao lado fumegava de uma chávena nicada. Cheirou a manhã, e soube que os galos dos pátio inclinavam as cabeças e cantavam ao sol. Que eram os lençóis envolventes senão as mortalhas dos defuntos? Que era o relógio vozeiro, batendo entre as fotografias da mãe e da falecida mulher, senão a voz dum velho inimigo? O tempo era suficientemente misericordioso para lhe deixar o sol vir à cama, e impiedoso para despedir o sol a badaladas quando a noite caía e mais ainda ele precisava da luz rubra e do claro calor.

Melhores Roteiros de todos os Tempos I: Annie Hall





Aula de roteiro. Uma das maiores aberturas e finais da História do Cinema


ANNIE HALL

written by
Woody Allen
Marshall Brickman


ABERTURA


(Sound and Woody Allen monologue begin)


FADE IN:

White credits dissolve in and out on black screen. No sound.


FADE OUT: credits



FADE IN:

Abrupt medium close-up of Alvy Singer doing a comedy monologue. He
wearing a crumbled sports jacket and tieless shirt; the background is stark.

ALVY
There's an old joke. Uh, two elderly
women are at a Catskills mountain
resort, and one of 'em says: "Boy, the
food at this place is really terrible."
The other one says, "Yeah, I know, and
such ... small portions." Well, that's
essentially how I feel about life. Full
of loneliness and misery and suffering
and unhappiness, and it's all over much
too quickly. The-the other important
joke for me is one that's, uh, usually
attributed to Groucho Marx, but I think
it appears originally in Freud's wit and
its relation to the unconscious. And it
goes like this-I'm paraphrasing: Uh ...
"I would never wanna belong to any club
that would have someone like me for a
member." That's the key joke of my adult
life in terms of my relationships with
women. Tsch, you know, lately the
strangest things have been going
through my mind, 'cause I turned forty,
tsch, and I guess I'm going through a
life crisis or something, I don't know.
I, uh ... and I'm not worried about aging.
I'm not one o' those characters, you know.
Although I'm balding slightly on top, that's
about the worst you can say about me. I,
uh, I think I'm gonna get better as I get
older, you know? I think I'm gonna be the-
the balding virile type, you know, as
opposed to say the, uh, distinguished
gray, for instance, you know? 'Less I'm
neither o' those two. Unless I'm one o'
those guys with saliva dribbling out of
his mouth who wanders into a cafeteria
with a shopping bag screaming about
socialism.
(Sighing)
Annie and I broke up and I-I still can't
get my mind around that. You know, I-I
keep sifting the pieces of the relationship
through my mind and-and examining my life
and tryin' to figure out where did the
screw-up come, you know, and a year ago we
were... tsch, in love. You know, and-and-and
... And it's funny, I'm not-I'm not a
morose type. I'm not a depressive character.
I-I-I, uh,
(Laughing)
you know, I was a reasonably happy kid,
I guess. I was brought up in Brooklyn
during World War II.



FINAL

Alvy and Annie shake hands and kiss each other friendly like. Annie crosses
the street, Alvy watching her go. Then he turns, and slowly walks down the
street off screen. His voice is heard over the scene:

ALVY'S VOICE-OVER
After that it got pretty late. And we
both hadda go, but it was great seeing
Annie again, right? I realized what a
terrific person she was and-and how much
fun it was just knowing her and I-I
thought of that old joke, you know, this-
this-this guy goes to a psychiatrist and
says, "Doc, uh, my brother's crazy. He
thinks he's a chicken." And, uh, the
doctor says, "Well, why don't you turn
him in?" And the guy says, "I would, but
I need the eggs." Well, I guess that's
pretty much how how I feet about
relationships. You know, they're totally
irrational and crazy and absurd and ...
but, uh, I guess we keep goin' through it
because, uh, most of us need the eggs.




THE END


Baixa o roteiro completo, faz o favor? Aqui.





Para comemorar os cinco anos da Revista de Domingo do Jornal O Globo, fui convidado a bolar uma lista dos cinco álbuns mais bacanas para se ouvir na estrada, e porquê.

Saiu hoje na Revista. Mas palhinha mesmo, ouvir um tantinho de cada um, só aqui, no Dodomundi. Uma musiquinha da cada álbum. Você baixa, coloca no seu ipod e... viaja, ne?

Download do set abaixo: http://www.sendspace.com/file/wpigkw


1. Forever on my Mind - Son House - Do Álbum Father of the Delta Blues # Para o viajante solitário, que vai para a estrada para se perder e se encontrar, o Blues americano e sua vertente Delta Blues, traduz em letras dilacerantes o estado da alma de quem precisa se deslocar por conta de se sentir deslocado.

2. Ma Ligne De Chance - Anna Karina & Jean Paul Belmondo - Do Álbum Bandes Originales Des Films De Jean Luc Godard # Os personagens de Godard adoram pegar uma estrada. Ouvir essa coletãnea de trilhas de seus filmes equivale voltar aos anos 60 e dirigir um corvette ao lado da Anna Karina, o que não é pouco.

3. Come Wind Come Rain - Vashti Bunyan - Do Álbum Some Things Just Stick in Your Mind # Para mulheres em estradas com chuva. Descabeladas, com os olhos embaçados de lágrimas, entenderem, pela voz emocionante dessa desconhecida cantora britânica dos anos 60, que vai ficar tudo bem.

4. Um Girassol da Cor de Teu Cabelo - Lô Borges - Do Álbum Clube da Esquina # Cair na estrada e refletir sobre caminhos. Os mineiros, desde Guimarães Rosa e seu Veredas, fazem isso como ninguém. O Clube da Esquina nos faz isso com música.

5. Autobahnn - Kraftwerk - Do Álbum Autobahn # Para estradas bem cuidadas e carros velozes. Um disco originamente feito para ser trilha sonora futurista e animada de passeios pelas estradas velozes da Alemanha não poderia ficar fora.

O Rádio, a cabeça e o Corpo

"Bach" Grupo Corpo 1996 - Cenografia Paulo Pederneiras






"In Rainbows" Radiohead 2009 - Cenografia Andi Watson




Ou seria o contrário?

Johnie Blue

No ano de 2005, dei essa entrevista ao Jô. Enquanto esperava nervoso no camarim, me foi oferecida uma garafa de uísque J. Walker Blue Label. Aceitei. Foram 4 curtas horas de espera, graças ao destilado.

E graças a ele, o Johnie Blue, a entrevista correu assim:


Zooey Deschanel canta The Smiths




Please Let Me Get What I Want

o amparo que as espécies se dão

AGROVAL - MANOEL DE BARROS


“...onde pululam vermes
de animais e plantas e
subjaz um erotismo criador
genésico”
M. Cavalcanti Proença





Por vezes, nas proximidades dos brejos ressecos, se encontram arraias enterradas. Quando as águas encurtam nos brejos, a arraia escolhe uma terra propícia, pousa sobre ela como um disco, abre com as suas asas uma cama, faz chão úbere por baixo, - e se enterra. Ali vai passar o período da seca. Parece uma roda de carreta adernada.


Como pouco, por baixo de suas abas, lateja um agroval de vermes, cascudos, girinos e tantas espécies de insetos e parasitas, que procuram o sítio como um ventre.


Ali, por debaixo da arraia, se instaura uma química de brejo. Um útero vegetal, insetal, natural. A troca de linfas, de reima, de rumem que ali se instaura, é como um grande tumor que lateja.


Faz-se debaixo da arraia a miniatura de um brejo. A vida que germinava no brejo, transfere-se para o grande ventre preparado pela matrona arraia. É o próprio gromel dos cascudos!


Penso na troca de favores que se estabelece; no mutualismo; no amparo que as espécies se dão. Nas descargas de ajudas; no equilíbrio que ali se completa entre os rascunhos de vida dos seres minúsculos. Entre os corpos truncados. As teias ainda sem aranha. Os olhos ainda sem luz. As penas sem movimento. Os remendos de vermes. Os bulbos de cobras. Arquétipos de carunchos.


Penso nos embriões dos atos. Uma boa disforme de rapa- canoa que começa a querer se grudar nas coisas. Rudimentos rombudos de um olho de árvore. Os indícios de ínfimas sociedades. Os liames primordiais entre paredes e lesmas. Também os germes das primeiras idéias de uma convivência entre lagartos e pedras. O embrião de um mussum sem estames, que renega ter asas.


Antepassados de antúrios e borboletas que procuram uma nesga de sol.


Penso num comércio de frisos e de asas, de sucos de sêmem e de pólen, de mudas de escamas, de pus e de sementes. Um comércio de cios e cantos virtuais; de gosma e de lêndeas; de cheiro de íncolas e de rios cortados. Comércio de pequenas jias e suas conas redondas. Inacabados orifícios de tênias implumes. Um comércio corcunda de armaus e de traças; de folhas recolhidas por formigas; de orelhas-de-pau ainda em larva. Comércio de hermafroditas de instintos adesivos. As veias rasgadas de um escuro besouro. O sapo rejeitando sua infame cauda. Um comércio de anéis de escorpiões e sementes de peixe.


E ao cabo de três meses de trocas e infusões , - a chuva começa a descer. E a arraia vai levantar-se. Seu corpo deu sangue e bebeu. Na carne ainda está embutido o fedor de um carrapato. De novo ela caminha para os brejos refertos. Girinos pretos de rabinhos e olhos de feto, fugiram do grande útero, e agora já fervem nas águas das chuvas.


É a pura inauguração de um outro universo. Que vai corromper, irromper, irrigar e recompor a natureza.


Uma festa de insetos e aves no brejo!



Gramática Expositiva do Chão (Poesia quase toda) – Manoel de Barros.
Editora Civilização Brasileira – edição 1990.