Natalinas - Diarios de Bicicleta



Diários de Bicicleta
Autor: Byrne, David
Editora: Amarilys

Desde o início dos anos 80, David Byrne, vocalista da banda Talking Heads, tem usado a bicicleta como principal forma de locomoção em Nova York, cidade onde vive. Quando viaja ou sai em turnê, ele sempre leva consigo uma bicicleta dobrável. A princípio, tal decisão foi tomada por mera conveniência. No entanto, quanto mais cidades visitava, mais o músico se tornava adepto desse meio de transporte...

500 dias de Verão



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500 dias de Verão

A tradução literal do título do filme “500 Dias com Ela” seria “500 Dias de Verão”. A mensagem do filme “500 dias de Verão” é que nessa vida tudo passa. Para o carioca não. O carioca vive 500 dias de verão. A diferença é que, quando chega a estação propriamente dita, tudo passa mais rápido, tudo fica mais ofegante, abafado, feliz, a vírgula substitui o ponto, o ponto substitui o parágrafo e, no caso deste texto, papel e lápis substituem o notebook, que esquenta demais para ficar no colo nesta noite de 30 graus, para ser suporte de ideias de uma cabeça quente e desorganizada pronta para um choque de ordem, porque no verão tudo precisa de um choque de ordem, seja flertes que querem virar romances, seja o que fazer com o décimo-terceiro, ou com o coração em final de campeonato brasileiro, com o fígado em véspera de carnaval, com as resoluções de Ano Novo, pois tudo no verão oficial passa desorganizadamente como um bloco de sujos numa quarta-feira de cinzas, e quando o prefeito nos chama de bloco de sujos, nós tocamos o bumbo solitário de quem paga imposto mas fica sem luz no Leblon, sem luz na Tijuca, e exigimos em troca um choque de ordem nas instituições que são sustentadas por nós, mas esquecemos os nós que somos nós, e o quanto sós estamos nós, que desatar e reunir faria do nosso verão uma estação ainda melhor, ainda que um verão carioca organizado não seja, convenhamos, verão carioca de verdade, e que talvez o próprio carioca, se chocado e ordenado, seja menos carioca, e isso é lindo e péssimo, porque o calor que inspira os compositores de marchinhas é o mesmo que queima as obras de Helio Oiticica, que nos faz procurar as comfort parties, festas caras no meio da semana, sem filas e sem pegação, mas que nos deixa sem paciência para fazer coleta seletiva do lixo ou tomar conta da água parada nos vasos de plantas, o que esconde uma ainda mais grave visão superficial do que seja meio ambiente, como tenho discutido com meus alunos de Ensino Fundamental e Médio, quando fazemos uma limpeza geral na sala de aula antes da aula começar, porque a sala de aula é um ambiente a ser respeitado, e que temos que ter uma melhor relação ambiental com esses ambientes pouco lembrados, a sala de aula, a rua onde se mora, o bairro onde se vive, a praia que se frequenta, o ônibus da segunda-feira, o outro, sim, o outro consiste em um ambiente a ser cuidado com doçura e respeito e, principalmente, a si próprio, esse ambiente esquecido, a mente, a saúde do corpo, a pele da mocinha que neste momento dorme ao meu lado, com um poema do Leminski tatuado nas costas, “A noite me pinga uma estrela no olho e passa”, que de vez em quando vai a academia para manter-se bela, e lê Ana Cristina Cesar na varanda para ocupar a mente, ou o pelo, sem circunflexo, abre parênteses, a Língua é o ambiente que mais sofre com o impacto das ações do homem, fecha parênteses, pelo da gata vira lata que dorme de barriga pra cima no pé da cama e agradece o calor, pois gatos gostam de calor e são exemplarmente organizados, e por isso cariocas deveriam ser as tais gatas extraordinárias que andam no meio onde fluem, e que evoluem e que incluem a todos, simples assim, então nosso prefeito, satisfeito, poderia ocupar-se de impor choque de ordem em outras áreas urgentes, e então haveria o equilíbrio entre os bons selvagens cariocas que somos e os cidadãos de Estocolmo que pretendem que sejamos, então haveria afinal equilíbrio ambiental, o altinho liberado na beira da praia, a pipa dibicando no alto do morro da Mangueira imortalizando Oiticica, a piscina de plástico na laje de casa, o pisca-pisca sincretista das luzes de natal misturadas ao neon dos inferninhos de Copa, os blocos de sujos, esses nós do verão, e nós no verão.

A Educação Sentimental - Gustav F.





"Frédéric afirmava que a sua existência também tinha falhado.
Era muito jovem, no entanto. Porquê desesperar? E ela dava-lhe bons conselhos: «Trabalhe! Case-se!» Ele respondia com sorrisos amargos; porque, em vez de exprimir o verdadeiro motivo da sua mágoa, ele fingia outra, sublime, fazendo um pouco de «Antony», o maldito, linguagem, de resto, que não desnaturava completamente o seu pensamento.
A acção, para certos homens, é tanto mais impraticável quanto o desejo é mais forte. A falta de confiança em si próprios embaraça-os, o temor de desagradarem apavora-os; aliás, as afeições profundas parecem-se com as mulheres honestas; têm medo de ser descobertas, e passam a vida de cabeça baixa.
Embora conhecesse melhor a Senhora Arnoux (ou até por causa disse, talvez), ainda se sentia mais cobarde do que outrora. Todas as manhãs, jurava a si próprio que ia ser ousado. Um pudor invencível impedia-o; e não podia guiar-se por qualquer exemplo pois aquele era diferente dos outros. Pela força dos sonhos, tinha-a colocado acima da condição humana. Sentia-se, ao lado dela, menos importante na terra do que os fios de seda que se lhe escapavam da tesoura."





Em loop na cabeça, como uma musica que teima.

"It was out of respect."



Aula Magna de roteiro: GoodFellas - Os Bons Companheiros, por Nicholas Pileggi and Martin Scorcese.





"There were guys, that's all they did all
day, was take care of Paulie's calls.



For a guy who moved all day long...



...Paulie didn't talk to people.
With union problems...



...or a beef in the numbers...



...only the top guys spoke
with Paulie about the problem.



Everything was one-on-one.
Paulie hated conferences.



He didn't want anyone
hearing what he said...



...or anyone listening to
what he was being told.



Hundreds of guys depended on him, and
he got a piece of everything they made.



It was a tribute, like in the old country,
except they were doing it in America.



All they got from Paulie was protection
from the guys trying to rip them off.



That's what it's all about. That's
what the FBI could never understand.



What Paulie and the organization does...



...is protect people who can't
go to the cops. That's it.



They're like the police
department for wiseguys.



People looked at me differently,
and they knew I was with somebody.



I didn't have to wait in line at the
bakery on Sunday morning for fresh bread.



The owner knew who I was with and no
matter how many people were waiting...



...I was taken care of first.



Our neighbors stopped parking in our
driveway, even though we had no car.



At ...



...I was making more money than most
of the grown-ups in the neighborhood.



I had it all.



One day...



One day, some neighborhood kids carried
my mother's groceries all the way home.



Know why?



It was out of respect."





.

Tudo dá certo




"Whatever Works", novo Woody Allen, estréia em Novembro no Brasil com duas expectativas previstas: a volta de Allen a Nova Yourk, depois de alguns anos filmando na Europa e a 1a parceria com o ator e roteirista Larry David, o cérebro por trás da sitcom Seinfeld.

Larry David notabilizou-se pelo gênio genioso, por enxergar o mundo com descrença e perplexidade. Adocicado para as massas em Seinfeld, onde não atuava, "só" escrevia e prestava sua personalidade aos 5 personagens. Jerry, Kramer, Elaine e Costanza são exatas quatro costelas extraídas de Larry David, constata-se ao assistir qualquer episódio de sua atual série "Curb Your Entusiasm", em que David escreve, atua, é a soma dos personagens de Seinfeld com o volume de cinismo e crueldade no talo.

Larry David e Woody Allen fazem parte de um grupo mínimo: o de gênios judeus que não acreditam em Deus, no Homem e acham que isso é libertador. Groucho Marx, filho de judeu, é o Buda dessa des-religião. É dele a frase usada por Allen para abrir o seu Annie Hall: ""Eu nunca faria parte de um clube que me aceitasse como sócio".

Em Whatever Works, Allen criou um personagem para Larry David, de um físico especializado na teoria das Supercordas. Ranzinza, lúcido, porém leve como o filme, onde Nova Yorque é exaltada por seus "cantinhos", não por suas paisagens e skielines, como em "Manhattan", o personagem de Larry David é o único que não acredita sequer na ilusão do cinema, ao dialogar e confrontar o tempo todo a platéia. No diálogo inicial, Woody Allen escreveu um monólogo entre Larry David e nós, a audiência, que já entra para a história do pensamento humano. É praticamente um mini poema épico dentro de um filme que é menos que um filme, e sim um roteiro que deveria se publicado para ser lido e relido, não filmado.

Aqui no Dodomundi, com exclusividade, o monólogo inicial de "Whatever Works", ou "Tudo Pode dar Certo"

"Por que querem saber a minha história?
Nos conhecemos?
Nos gostamos?
Deixa eu explicar, certo?
Não sou um cara simpático.
Carisma nunca foi prioridade para mim.
E, para que saibam, esse não é daqueles filmes sensação do ano.
Então, se você é um desses idiotas que precisa se sentir bem, vá fazer uma massagem nos pés.
O que significa tudo isso, afinal?
Nada. Zero. Nadinha.
Nada leva a nada e, ainda assim, há muito idiota tagarelando.
Não eu. Sou um cara de visão.
Porque estou discutindo com vocês, a audiência.
Mas seus amigos, colegas de trabalho, jornais, TVs.
Todos ficam felizes em falar, cheios de desinformações.
Moral, ciência, religião,
política, esportes, amor.
Seus portfólios, seus filhos, saúde. Meu Deus!
Se eu tivesse que comer nove porções diárias de frutas e vegetais para viver, não ia querer viver.
Odeio essa droga de frutas e vegetais.
E Omega 3, esteira, eletrocardiograma a mamografia, o ultrasom pélvico e, ai, meu Deus, a colonoscopia!
E, mesmo assim, ainda chega o dia
em que te colocam em um caixão
e virá a próxima geração de idiotas
que também te falará sobre a vida
e definirá o que é apropriado.

Meu pai se matou porque os jornais matinais o deixaram deprimido.
E você pode culpá-lo?
Com o horror, a corrupção a ignorância, a pobreza o genocÌdio, a AlDS, o aquecimento global, o terrorismo os valores familiares imbecis
e os imbecis armados!

"O horror", Kurtz falou sobre ele em "O Coração das Trevas".
"O horror".
Sorte que Kurtz não tinha o Times entregue na selva, aí ele veria algum horror.
Mas o que devem fazer?
Vocês lêem sobre o massacre em Darfur ou sobre um Ônibus escolar que explodiu, e dizem, "Meu Deus, o horror!"
E aí, vocês viram a página e terminam seus ovos mexidos com bacon.
Porque... o que se pode fazer?
É massacrante.

Eu já tentei me matar.
Obviamente, não deu certo.
Mas por que querem saber disso?
Deus, vocês, o público, têm seus próprios problemas.
Tenho certeza que estão obcecados com suas tristezas, esperanças e sonhos.
As previsÌveis vidas amorosas infelizes.
Seus empreendimentos fracassados.
"Ah, se eu tivesse comprado aquela ação!"
"Se eu tivesse comprado aquela casa anos atrás!"
"Se eu tivesse me aproximado daquela mulher."
Se isso, se aquilo.
Querem saber?
Me dêem um tempo com esses seus "poderia ter" e "deveria ter".
Como minha mãe dizia, "Se minha avó tivesse rodas, ela poderia ter sido um bonde."

Carece



Doce é Miranda July.